“Podemos voltar atrás?”

Entrámos na sala e, como de costume, dirigi-me imediatamente para o colchão para me sentar.

“Podemos voltar ao início?” – perguntou a criança.

“Como assim volar ao início?”

“Não comecei bem, quero começar outra vez. Quero apagar a minha entrada na sala e entrar de novo.”

“Sabes, é mesmo assim, por vezes acontecem coisas que gostaríamos de apagar” – enquanto dizia estas palavras, o sorriso da criança não desvaneceu, mas todo o corpo dele gritava por ajuda. É que por vezes as crianças são mais do que alegria e sorrisos e por vezes só mesmo no corpo é que se sente. Nisto a criança entrou e saiu da sala 3 vezes, das 3 vezes a fazer a mesma pergunta.

“Mas o que fez a tua entrada hoje ser diferente das entradas no outro dia?”

“É que eu entrei e senti-me triste. E eu não me posso sentir triste. Eu venho aqui para tu me fazeres sentir bem. Os meus pais ficam muito preocupados quando me vêm triste, por isso, eu nunca estou triste. Ajuda-me a não estar triste.”

Mais uma vez, uma história, sem ser nenhuma história em particular. Neste diálogo, que tem muito  de real, revejo mais do que uma mão cheia de crianças. A realidade é que hoje em dia as nossas crianças não sabem sentir-se tristes, e mais preocupante, temos neste momento pais e crianças que, com uma ânsia completamente justificável de quererem ver os filhos felizes, não sabem reagir perante a tristeza dos mesmos.

É uma realidade que ver uma criança triste parte o coração, basta conviver com crianças para o saber. No entanto, nem pais, nem professores, nem terapeutas têm o poder de proteger a criança de tudo, de forma a que esta nunca tenha sentimentos menos agradáveis como raiva, angústia, ansiedade e tristeza. Como adultos sabemos que estes sentimentos fazem parte da nossa vida, e se o aprendemos foi durante o nosso crescimento. Desta forma, negar estes sentimentos às crianças tem duas consequências, ambas nefastas.

A primeira passa por uma construção irreal do que rodeia a criança. Ao proteger a um nível máximo as crianças, de forma a que estas não vivenciem dor ou sofrimento, estamos a passar a mensagem de que no mundo tudo as irá proteger e que, por isso, ela é imune aos acontecimentos negativos. Este ponto é particularmente prejudicial uma vez que não corresponde à realidade. Mais tarde ou mais cedo a criança irá deparar-se com dificuldades e obstáculos e caso não esteja preparada para tal não terá as ferramentas necessárias para lidar com essa frustração.

Em segundo lugar, e igualmente importante, estamos a criar um sentimento carregado de culpa para a criança. Frequentemente, nós adultos, sentimos tristeza mesmo sem nenhum motivo aparente. É assim. E ao longo da nossa vida vamos aprendendo que existem dias melhores, dias piores e que a tristeza vai e vem. No entanto, quando dizemos a uma criança que esta não tem o direito de sentir tristeza, ou que esta sentir tristeza inquieta os pais a um nível problemático, estamos a passar a mensagem de que a criança está a vivenciar ou a sentir algo que não deveria e que preocupa os adultos.

Claro que nos preocupamos quando as crianças se sentem menos bem, faz parte do nosso papel enquanto adultos. No entanto, esta preocupação deve ser passada como algo positivo, porque nos preocupamos com ela, e não como negativo no sentido de que esta não deveria sentir o que sente. A linha é ténue, mas ainda assim, são coisas diferentes.

Sobretudo neste dia de sensibilização para a saúde mental, gostaria de ressalvar este pormenor. Existem crianças a viver com depressão e com uma tristeza de um nível extremamente elevado. Estas crianças, visto a depressão infantil se expressar de diversas formas, muitas vezes são crianças extremamente agitadas, inibidas, ou mesmo desajustadas de nível social, mas com um sofrimento inquestionável.  Algum pai pensa em descurar uma gripe? Claro que não, provoca mau estar à criança e pode ser muito prejudicial. Por esse mesmo motivo, importa estar atento a alguns sinais que as crianças possam passar de mau estar psicológico e, quando efetivamente diagnosticadas, ser empáticos e perceber o caminho a traçar, porque estar francamente triste pode ser tão, ou mesmo mais, nefasto do que qualquer constipação.

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