O bichinho da ansiedade

O bichinho da ansiedade é um bichinho muito comum. Na realidade, bem mais comum do que aquilo que se acredita. Grande parte das vezes o bichinho da ansiedade aparece só esporadicamente e logo, logo se vai embora. No entanto, algumas das nossas crianças convivem diariamente com o bichinho da ansiedade, o que se torna muito complicado. É quase como ter para animal doméstico um animal selvagem.

Então, antes de mais, temos de esclarecer que a ansiedade é um mecanismo natural, essencial e de extrema importância. Este mecanismo é ativado de forma involuntária e automática sempre que o nosso cérebro deteta que estamos em perigo ou considera que devemos estar em alerta. Após ser ativado, o nosso corpo vai passar por uma data de reações naturais: o ritmo cardíaco acelera, aumentam os suores, a frequência respiratória aumenta, podemos sentir tremores. Ou seja, a ansiedade, muito mais do que um estado mental, ou do que um fenómeno psicológico, é um processo corporal, que vai trazer alterações em todo o corpo. Estas alterações são o que permitem uma resposta de luta-fuga. Ou seja, quando o nosso corpo começa a passar por todas aquelas alterações, na realidade está a preparar-se para fugir ou para lutar. Esta decisão geralmente é tomada numa questão de segundos e, após passar o perigo, o corpo regressa gradualmente ao normal. E claro, estas alterações são tão maiores quanto o estímulo inicial. Quer dizer, existe um espectro entre o ansioso até positivo, ao ligeiro desconforto, e até mesmo ao pânico, na outra ponta do espectro.

A questão prende-se então ao quando é que o bichinho da ansiedade começa a ser demasiado inoportuno. Normalmente isto acontece quando o bichinho está sempre presente, ou seja, estamos permanentemente em estado de alerta, ou então quando nos leva a ter reações desadaptadas, o que nesse caso poderá se refletir numa perturbação da ansiedade. Claro que quando nos referimos a este quadro, ou à ansiedade no geral, estamos a falar de algo involuntário que muitas vezes é difícil de explicar mesmo para adultos.

No caso das crianças torna-se ainda mais complicado, uma vez que estas normalmente não conseguem identificar a ansiedade. Quando o conseguem, ou conseguem identificar o mau-estar e desconforto, é recorrente que não consigam explicar o porquê.

Dado às diferenças da expressão da ansiedade entre adultos e crianças, não é de todo raro que os sintomas da ansiedade sejam descurados, passem despercebidos ou que sejam confundidos com outros quadros. Por este motivo, é de extrema importância tanto para pais, como para professores e terapeutas estar atentos, para perceber se este bichinho está a importunar as nossas crianças.

-Preocupação excessiva – apesar das crianças poderem já estar a frequentar a escola e terem de gerir os trabalhos de casa, as atividades extracurriculares e ainda os testes (o que por si só já significa mais pressão do que aquela que as crianças deveriam suportar), a realidade é que a infância é uma altura de calma e passividade. Uma criança que esteja constantemente a preocupar-se de forma excessiva com o decorrer dos dias, das semanas e dos meses, poderá ser uma criança que esteja a dar sinais de ansiedade.

Dificuldades em gerir o sono – este sintoma é bastante parecido com aquele sentido pelos adultos. Crianças que estejam demasiado ansiosas são crianças que terão dificuldades em adormecer ou que vão evitar a hora de ir para a cama. No entanto, este sintoma poderá facilmente passar despercebido aos pais em crianças que vão para a cama mas que depois demorem em adormecer. Neste caso, será mais visível no dia seguinte quando a criança andar mais sonolenta durante o dia, e que comece a acordar gradualmente com o aproximar da hora de ir dormir. Tanto no ponto anterior como neste, rotinas programadas poderão ajudar, sendo que este tema já foi aqui debatido (https://terapeutaanafonseca.wordpress.com/2016/09/26/5-topicos-sobre-a-importancia-das-rotinas/

Dificuldades de concentração – como é claro se a criança está preocupada e ansiosa, terá mais dificuldades em concentrar-se nas suas diversas atividades, nomeadamente académicas, até porque as crianças apresentam uma maior dificuldade de auto-regulação e do foco da atenção para determinadas tarefas. Desta forma, se a criança apresenta constantemente sinais de distração ou do famoso “cabeça na lua”, poderá significar que naquele momento a criança está de tal forma preocupada com outro assunto que não tem a capacidade de mobilizar a sua atenção para o que está a ser pedido.

Irritabilidade ou agressividade – estes dois tópicos são de extrema importância, até pela facilidade com que são confundidos com outras patologias. A irritabilidade e a agressividade no caso da ansiedade podem ter vários fundos. Em primeiro lugar poderão estar ligados com outros factores, tais como as dificuldades no sono que podem gerar maior frustração e agressividade. Por outro lado, o sentir ansiedade para a criança pode ser muito difícil de gerir, motivo pelo qual a criança poderá perder o controlo com maior facilidade. Contudo, importa referir que a ansiedade pode ter co-morbilidade com outras perturbações do desenvolvimento, tal como a PHDA.

Resistência à mudança – ou então dificuldade em processar a contrariedade e necessidade de controlo. Isto deve-se à necessidade de controlo que a criança tem para conseguir sentir-se segura e desta forma atenuar a ansiedade. No entanto, se for impeditivo para a criança, deve ser visto como um sinal de alerta.

Dificuldades na linguagem e gaguez – apesar das dificuldades no discurso representarem um campo vasto sobre o qual se deve ter muita atenção, a realidade é que a ansiedade pode moldar o discurso, provocando algumas dificuldades e, em muitos casos a gaguez.

Rigidez e agitação psicomotora – como já foi dito o primeiro veículo de comunicação que a criança controla é o corpo. Aliás, como explicado, a ansiedade vai ter respostas corporais de luta-fuga, nomeadamente o ritmo cardíaco e a respiração, o que por si só, pode levar a uma maior rigidez tónica e a uma maior sensação de agitação. Por outro lado, se a criança não processa a ansiedade e o motivo de estar ansiosa, a expressão será seguramente pelo corpo. Estas são também crianças que frequentemente gesticulam de forma excessiva ou que apresentam tiques motores.

Somatização – esta palavra é realmente complicada, mas significa apenas que o corpo começa a espelhar a ansiedade a um nível muito elevado. Este é o caso de crianças que apresentem muitas dores de cabeça, de barriga, vómitos ou diarreias sem motivo médico aparente. Na realidade, não é que as crianças não sintam as dores, mas é mais do que fisiológico, é o psicológico a refletir-se no corpo e a dar o sinal de alerta.

Estes são apenas alguns dos sinais a que devemos estar atentos. Contudo, caso estes sejam identificados, o adulto não deve transmitir ainda mais insegurança e preocupação, uma vez que isso só trará mais ansiedade. Pelo contrário, os pais e educadores devem ser uma figura de referência e segurança, tranquilizando a criança, de forma a baixar os níveis de ansiedade. Existem diversas formas de relaxar que podem ser incutidas no quotidiano e que podem ajudar as crianças. Em todo o caso, caso os educadores ou os pais pensem que é necessário, podem e devem sempre consultar um profissional de saúde para mais esclarecimentos.

9 comentários Adicione o seu

  1. susana oliveira diz:

    Bom dia,
    Muitas vezes as crises são confundidas com birras, ainda não estamos preparando para lidar com esta situação.
    Obrigada pelo texto!

    1. AF diz:

      Bom dia Susana,
      É verdade que muitos sinais da ansiedade são confundidos com birras ou com outros casos. É importante estarmos atentos aos pedidos das nossas crianças e, quando necessário, contactarmos um profissional de saúde para esclarecimentos. Muito obrigada pelo comentário!

  2. Mônica S. diz:

    Eu tinha esse bichinho aí desde criança, todos diziam que era hiperatividade… Eu não conseguia dormir, não conseguia fazer dever de casa, não conseguia nem mesmo assistir às aulas na escola. É engraçado, porque eu sempre achei que era hiperatividade, mas lendo o seu texto eu percebi pela primeira vez que na verdade era ansiedade!
    Sim, eu ainda tenho os mesmos problemas até hoje, mas só depois de adulta que eu comecei a pensar que era ansiedade, mas nunca cogitei a possibilidade de ter tido isso durante a minha infância.
    Muito obrigada pelo texto Ana, me ajudou muito.
    Beijinhos

    1. AF diz:

      Bom dia Mônica!
      É verdade que crianças podem ter perturbação da hiperatividade e serem ansiosas ao mesmo tempo, mas também é verdade que por vezes o bichinho da ansiedade é muito silencioso e passa despercebido. Muitas vezes só quando os sintomas vão evoluindo com a idade é que nos começamos a aperceber. Existem várias técnicas que podem ser feitas para baixar os níveis de ansiedade! Falaremos delas brevemente aqui no blog. Muito obrigada pelo comentário!

  3. Célia diz:

    Boa tarde Ana,
    Tenho um filho de 3 anos que esteve com os avós até agora, e que começou a frequentar o infantário. Embora conheça o estabelecimento, porque o meu filho mais velho também lá andou e tenha confiança nas pessoas com quem ele está, corta-me o coração o olhar de tristeza com que ele fica de manhã e que se mantem até o ir buscar. Tenho oportunidade de o observar durante o tempo que ele está no exterior sem que ele se aperceba e continua da mesma maneira, triste e isola-se dos outros meninos, recusando a aproximação dos pares. A educadora diz que enquanto eu não me soltar ele não vai conseguir adaptar-se e é aí que lhe quero pedir ajuda. Como é que se consegue? Não é simplesmente carregar no botão…Tenho consciência que é uma fase, e que os benefícios de frequentar a escolinha são superiores aos prejuízos mas é difícil lidar com aquele olhar de tristeza quando ele é uma criança super feliz e bem disposta. Como devo proceder? Qual o comportamento que devo ter para com o meu filho?

    Célia.

    1. AF diz:

      Boa noite Célia!

      Antes de mais, peço-lhe imensa desculpa pela demora na resposta!
      Depois, penso que a Célia já tem consigo toda a informação que necessita, e no fundo, as educadoras já lhe disseram o mesmo. No fundo, as crianças são o espelho dos comportamentos dos adultos de referência, neste caso a mãe. Se o seu filho sente que está preocupada e ansiosa sobre a sua estadia na escola, o que ele vai ler é que ele próprio deveria estar preocupado e ansioso. No fundo, se a própria mãe tem reservas, como pode o filho desfrutar do dia sem ansiedade?
      Percebo perfeitamente que a emoção fale mais alto e que vá entrando em espiral: a mãe fica preocupada com o filho, o seu filho fica ansioso por ver a mãe preocupada, o que por sua vez, ainda a preocupa mais a si. Mas é uma questão de racionalizar e relevar a situação: se já conhece a escola e tem confiança, tem de a demonstrar ao seu filho, e fazer entender que todos têm o seu papel e a sua rotina, e que neste momento a dele é ficar na sua escola.
      Agora, se notar que a ansiedade não diminui, ou por outro lado aumenta, mesmo tentando passar uma maior confiança e optimismo, então será altura de ver a situação de outro prisma. Por um lado, por poder haver algum problema na escola, com as educadoras e com os coleguinhas, por outro por poder haver necessidade de um acompanhamento mais especializado.
      É uma questão de estar atenta, mas de também passar segurança.
      Espero ter ajudado, e se necessitar de mais alguma informação contacte tanto pelo blog ou pelos contactos disponibilizados!

      1. Célia diz:

        AF,

        Vou aguardar mais um tempo, ficar atenta e tentar ficar mais confiante.

        Muito obrigada.

        Célia

  4. Vagner diz:

    Meus parabéns, um excelente artigo. Obrigado por compartilhar conosco!

    1. AF diz:

      Muito obrigada pela palavras! É sempre positivo receber feedback do nosso trabalho! Continue a seguir os textos da terapeuta Ana Fonseca e não hesite nunca em nos contactar!

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