A escola que afinal é cinzenta

Atualmente a escola tem sido motivo de grande debate. Seja porque o atual ministro quer ouvir as crianças, porque os pais espanhóis estão a fazer greve aos TPC, seja por estarmos a meio de novembro e as crianças já estarem exaustas… A realidade é que todos concordam que a escola não está adequada às necessidades do quotidiano atual. Mas a concórdia fica por aí. Se por um lado se diz que as crianças cada vez brincam menos, também se fala da necessidade de ter as crianças ocupadas. Se por um lado se fala do perigo das novas tecnologias, também se fala das suas potencialidades. Se por um lado se comenta que o processo deve ser mais valorizado, também se afirma que vivemos numa sociedade cada vez mais orientada para resultados. Se se diz que a escola deve transmitir conhecimento, também se diz que não deve deixar para trás os valores.

O grande problema no meio desta discussão, que a tanta discórdia leva, é que é preciso compreender que a própria sociedade evolui, trazendo novos paradoxos que afetam diretamente a escola. Assim, estes paradoxos significam que ambas as visões são válidas e verdadeiras, tendo sempre que ser entendidas e discutidas na sociedade em que estamos e nos apoios que são oferecidos.

Lembremo-nos que antigamente, quando o atual modelo de escola apareceu, tínhamos crianças que tinham aulas durante apenas uma parte do dia, tendo a mãe frequentemente em casa durante o restante tempo. As crianças moravam relativamente perto da escola, possibilitando o ir e voltar sem necessidade de supervisão. As rotinas familiares andavam de mão dada de forma harmoniosa com a rotina escolar.

Tudo mudou na atualidade. Assim, é verdade que sabemos da capacidade de concentração da criança e da necessidade de descanso, o que poderia levar a ter aulas apenas numa parte do dia. Mas por outro lado, também sabemos que a rede familiar da criança está a trabalhar em horário completo, impossibilitando de proteger e acolher a criança no horário não-escolar. Daí a necessidade de estender o horário escolar e de aparecerem as famosas AEC (atividades extra-curricular). Sabemos atualmente que o tempo livre e a imaginação são factores importantes para a criança, mas por outro lado, também conhecemos a importância da estimulação, do envolvimento em diversos contextos e dos benefícios mesmo sociais da prática de outras atividades fora da escola. Sabemos que as crianças aprendem hoje de forma diferente, de forma mais espontânea e rápida com acesso a novas tecnologias, mas sabemos também da importância do foco, da memória e da concentração, numa sociedade que anda cada vez mais efémera e célere.

A única coisa que me atrevo a dizer que ainda não sabemos é a importância do brincar. Ainda tratamos o brincar como se fosse algo minoritário e desperdício de tempo, quando é na realidade a forma mais valiosa de aprendizagem existente na criança. De facto, no dia em que governos, educadores, pais e outros agentes que intervenham com crianças se apercebam da importância do brincar, metade do sistema educativo fica resolvido.

Repare-se, as sociedades mudaram e com esta mudança, também o sistema educativo é obrigado a mudar. E vai mudando, mas não a uma velocidade rápida o suficiente e sem entender os equilíbrios.

É fundamental que se entenda a necessidade de se motivar as crianças para a aprendizagem por si só. É fundamental que se criem aulas e estratégias de promoção de inteligência emocional e resiliência. É fundamental que exista uma educação motora, mas acima de tudo psicomotora e integrada, que vá além dos princípios académicos e que seja valorizada. É fundamental que se entenda a arte como uma disciplina válida. É fundamental que se compreenda que o ensino das línguas, das ciências e das restantes disciplinas tem de partir de uma base empírica e lúdica. É fundamental que o ensino seja transversal e que aceite a diferença.

Mas é também fundamental que esta mudança seja realista e coerente com a sociedade que existe. Não podemos cair no extremo de deixar a criança aprender apenas o que quer e que lhe dá prazer, porque como adultos, sabemos perfeitamente que não é esse o mundo que a criança vai encontrar.

E não, este equilíbrio não é de todo fácil. Aliás, se o fosse, não haveria tanta discussão.

No entanto, a única forma de este diálogo avançar é construindo uma ponte entre pais e professores, terapeutas e escola, medidas governamentais e famílias. Porque se não dermos o exemplo às nossas crianças, ninguém o dará.

 

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