Não me falem, mostrem

Caros adultos precisamos de falar. Parece que ao fim de algumas décadas neste mundo se esqueceram de como é não saber. Parece que já sabem tanto que começaram mesmo a acreditar no provérbio “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. Mas não adultos, nós não conseguimos fazer o que vocês dizem, sem fazer o que vocês fazem. Nós nada sabemos do mundo ainda, quanto mais interpretar palavras sem ações que venham junto com elas. Adultos, têm que entender que nós somos pequenos seres que acabaram de chegar a este vosso mundo, sobre o qual tudo sabem, mas onde tudo é novo para nós.

Por isso não me digam que o mundo é feito cores maravilhosas, mas mostrem-me livros de desenhos vibrantes; não me falem dos sabores existentes, mas mostrem-me as frutas saborosas que possa provar; não me falem do cheiro da maresia, das flores ou do campo, mas levem-me antes ao oceano, às rosas e à terra. Não me falem das voltas na barriga que se sentem, mas deixem-me saltar para cima e para baixo, dar cambalhotas e rodopios, para eu saber o que é sentir o meu corpo a mexer. Não me falem da importância do ler e do contar, mas mostrem-me como o posso aprender pelo meu corpo e ajudem-me a usar esses conhecimentos de uma forma que me faça sentido, a mim criança, não a vocês adultos. Não me falem da importância de estar quieto porque vocês querem, mas mostrem-me o caminho para aprender a regular-me, e conseguir correr muito quando posso e a acalmar quando é preciso.

Caros adultos, não me falem do que eu devia fazer para vos ajudar ou facilitar as tarefas, mas mostre-me o mundo de possibilidades que há lá fora. Não me digam que têm pressa e que eu tenho de me despachar, quando eu ainda agora aqui cheguei e tudo é novo para mim. Não me roubem o prazer de quem ainda está a fazer pela primeira vez e de quem ainda descobre aos poucos as maravilhas nas pequenas coisas.

Antes, caros adultos, estejam ao pé de mim. Estiquem a vossa mão se me virem a fraquejar, aparem-me quando eu cair e soprem para aquele joelho esfolado de quem também está a aprender o que é a dor. E no fim, ajudem-me a levantar e a partir para uma nova aventura. É que afinal, só se descobre o mundo pela primeira vez uma vez.

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http://dicasdefarmaceutica.blogs.sapo.pt/dia-da-crianca-vamos-brincar-21655

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