Sim, este é o meu trabalho

Queridos amigos,

Temos de ter uma conversa séria. Eu sei, desde cedo (demasiado) que nos dizem que temos de crescer, tornar-nos responsáveis, estudarmos muito, aprendermos o máximo, que é para um dia podermos trabalhar no mundo dos crescidos, vestir fatos e saltos altos, passar o dia atrás de um computador e seguirmos com a nossa vida. Eu sei disso e admiro muito a tua escolha, no entanto, não foi essa a escolha que eu fiz para mim.

Sabem, também eu estudei, tornei-me responsável e até hoje esforço-me ao máximo para aprender tudo o que posso sobre a minha profissão. A diferença foi que escolhi outro mundo, que na realidade nem é meu. Eu escolhi habitar o mundo da criança que tenho do outro lado, com tudo o que isso acarreta. Eu escolhi brincar com plasticina, fazer fortes e castelos, ser cavalo, ser dragão, ser monstro mau, ser cavaleiro andante, ser princesa, brincar com madeiras, com dominós e mikado. E vos garanto, não foi uma escolha fácil. Porque por cada vez que entro naquele mundo, não entro à força. Entro de forma pensada, estruturada e cuidada, pondo todo o meu corpo e todo o meu pensamento naquela criança e em como lhe posso ser útil.

Parece fácil não parece? Mas por trás de cada decisão que eu tomo e de cada palavra está uma aula, uma palestra, uma conferência, um livro ou um artigo. Está um estudo caso, uma revisão bibliográfica e estão horas de planeamento. Cada vez que brinco com plasticina aproveito para fazer uma letra e tentar generalizar um conceito; por cada vez que construo um forte estou a apostar na construção gnoso-práxica e na securização daquele espaço;cada vez que sou um cavalo, estabeleço uma relação terapêutica de cooperação com a criança; cada vez que sou monstro e sou dragão, esforço-me para ajudar a criança a construir a sua auto-estima e auto-conceito; cada vez que sou cavaleiro ou princesa, crio um universo imaginário onde a criança se supera e se constrói; cada vez que brinco com madeiras ou dominós, aposto na capacidade de planeamento e de construção, promovendo as funções executivas. Afinal, não é assim tão fácil pois não?

Não me leves a mal querido amigo. Eu também entendo que este nome a que eu chamo de profissão (se não mais ainda) que é a psicomotricidade é difícil, e eu irei explicar-te a génese deste nome todas as vezes que forem necessárias. Até tu entenderes que naquela sala, o pensamento e o movimento não trabalham apenas em conjunto, são antes um só. E eu trabalho, conscientemente e de forma direcionada nessa harmonia, sabendo que este caminho vai ter impacto em cada parte da vida da criança.

Sabes, não somos assim tão diferentes: estudamos, trabalhamos, com esforço para ser melhores e para fazer mais. A diferença, é que eu faço-o a brincar. Já viste a minha sorte?

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2 comentários Adicione o seu

  1. Ana Silva diz:

    Penso que a grande diferença é que muitos adultos pensam saber tudo e por isso acham que o seu grande papel é preparar os outros mais novos para o futuro, esquecendo a enorme importância da descoberta alimentada pela enorme curiosidade das crianças ” enquanto cientistas curiosos” que brincam, exploram e aprendem porque motivados Enquanto que também alguns ( poucos) adultos se gostarem e acreditarem no que fazem, sentem a sua profissão não como um penoso trabalho mas um jogo que os apaixona.

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