Tem certeza que a letra é o mais importante?


Não é que eu não goste de reuniões com professores, encaro como uma parte natural do meu trabalho, não tão divertida como as sessões com as crianças, claro. É que efetivamente existem reuniões com professores formidáveis, onde conhecemos profissionais extraordinários e que estão prontos para ver mais além do que a sala de aula. Depois, existem outros  que encaram a criança como um computador, onde têm de instalar os mais diversos e complexos programas, sem verificar se suportam ou não o sistema, e onde os terapeutas funcionam tipo informáticos, à espera de encontrar a falha que dificultou a tarefa.

Esta reunião foi uma dessas. Um menino, lindo, maravilhoso, mas extremamente esquivo. Desde que o tinha conhecido, há quase um ano atrás, que quase não lhe tinha fixado o olhar. O mesmo que tinha em doçura, tinha em desafio e em oposição. Era um menino perspicaz, mas que não suportava o contacto, o toque, e que vivia num mundo onde nunca era bom o suficiente. É que sabem, na vida dele, ele nunca tinha sido o suficiente mesmo. Não tinha sido o suficiente para o pai não ir embora, não tinha sido o suficiente para a mãe não ser violenta com ele, não tinha sido bom o suficiente para o padrasto lhe dar de comer e de beber. Só mais crescidinho, quase a entrar para a escola, uma tia afastada o arrancou daquele pesadelo e o levou para um lar onde não lhe faltava nada, sobretudo amor.

Esta tia, a quem o menino chamava mãe com orgulho, procurou-me quando ele ainda estava no primeiro ano. A letra era o principal problema, segundo a professora. Aprendia tudo a um ritmo extraordinário, trabalhava sempre um pouco mais que os outros meninos, era quieto mas educado, só que aquela letra…

Quando o conheci e o vi a atirar-se sem controlo nenhum sobre a cadeira pela primeira vez, entendi logo que a letra teria de esperar.

Três semanas antes antes da dita reunião, a mãe (ou tia, se o biológico for assim tão importante) estava radiante: a professora finalmente via melhorias e o nosso trabalho começava a trazer resultados para casa. Uma semana depois, um dos processos que estava em tribunal sobre a custódia do menino foi re-aberto.

Talvez por isso não tenha estranhado a convocatória da reunião. Íamos falar de como o menino estava a lidar com toda a situação. Estava claramente enganada. A principal e única preocupação da professora foi que a letra do menino tinha piorado, pelo que devíamos aumentar a periodicidade das sessões, para voltar aos bons resultados.

Fiquei sem resposta. Como é que é possível que existam professores que, mesmo estando com as crianças todos os dias, não vêm o seu sofrimento? Como é que se explica que estes professores saibam das dificuldades que as crianças trazem de casa e mesmo assim se foquem apenas na caligrafia?

Eu tentei explicar tudo isto. Tentei explicar a esta professora que, neste momento, a letra era a menor das preocupações desta criança. Tentei explicar que enquanto a sua cabeça não fosse apaziguada, a sua mão se iria recusar a escrever. Tentei explicar que somos muito mais do que mecanismos e que, mesmo que tentemos, os nossos sentimentos não se desligam. Tentei explicar que as crianças sentem de forma especial, e que muitas vezes esses sentimentos estão à flor do corpo. Tentei explicar que não seria aumentando o horário já preenchido de uma criança exausta que iríamos chegar às suas necessidades.

Eu tentei, mas de pouco serviu. É que no fundo a professora não estava lá para discutir as necessidades daquela criança, estava antes para me dizer as suas. E enquanto nós, adultos, não nos apercebermos que a nossa principal função é responder às necessidades das crianças, estaremos a empurrar crianças por caminhos que não são os seus.

 

Retirado de http://www2.comunitaria.com.br/wp-content/uploads/2015/08/criança-escrever-escrita-alunos-escola-aulas.jpg
Nota: esta história não representa nenhum caso real, mas é antes baseado num conjunto de observações clínicas observadas em diversos casos. Qualquer semelhança com um caso específico é mera coincidência.

2 comentários Adicione o seu

  1. teresa vozone diz:

    Parabéns,,e sorte desta criança em se ter cruzando consigo!Alguem que viu para lá do evidente…ou que viu o eviente e viu os sinais de pedido de ajuda,
    Uma das minhas guerras de estimação é obrigarem a escrever co letra corsiva …ppara que? Só porque sempre se fez….

    1. AnaFonseca diz:

      Muito obrigada pelo seu comentário e pela sua partilha!

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