Tem um cromossoma a mais, e daí?

a

Certo dia estava a passar na rua com uns amigos quando uma menina com trissomia 21 passou por nós, de mão dada com a mãe, presumo eu.

“Ai, coitada. O que vai ser daquela criança?”

Nisto, a menina ia-se aproximando de uma placa que continha algumas informações escritas.

“Ai, pobrezinha, nem se apercebe que aquilo são letras… O que vale é que eles nem se apercebem, estão sempre felizes e são sempre bonzinhos.”

Eu ia responder à minha amiga. Aliás, mentalmente já lhe tinha dito tudo. Tinha-lhe dito que a T21 é um dos distúrbios genéticos mais comuns e mais estudados, o que nos permitiu saber desde bem cedo como potenciar as capacidades de quem tem T21. Disse-lhe que os principais atrasos que se observavam antigamente em crianças com esta perturbação deviam-se, sobretudo, na pouca estimulação existente, quando se deixavam estas crianças em salas ocas e vazias, onde qualquer outra criança também teria uma grande dificuldade em crescer. Expliquei-lhe que os recursos hoje em dia existentes ao nível das terapias já conseguem ajudar as famílias e estas crianças a apanhar o ritmo. Até lhe tinha dito que a baixa esperança média de vida estava a dar a volta, e que a medicina corria a passos largos no sentido de uma vida longa e de qualidade, tal como qualquer outra pessoa. Disse-lhe mentalmente, já mais ríspida, que apenas tinham um cromossoma a mais, não uma etiqueta na testa para se sentir pena. Ia mostrar-lhe como existem pessoas com T21 a concretizar sonhos como gente grande: ser professores, dar palestras, ser cozinheiros, jardineiros, gerir negócios, ser atletas de alto nível, e tantos outros objetivos a que se propunham.

No fundo, assim que abrisse a boca, ia dizer à minha amiga que quem tem trissomia 21 tem um mundo de possibilidades, como qualquer outra pessoa. Que se tivesse os recursos necessários, chegaria longe, assim como qualquer outra pessoa, quando sem recursos, se depara com muito mais dificuldades. E sobretudo, ia dizer-lhe, que são pessoas, não objetos dignos de piedade. Que tinham o direito a chatear-se, a serem felizes, a sonhar, e a serem desagradáveis. Tinham o direito a ser humanos, muito antes de terem um cromossoma extra ou não.

Ia-lhe dizer tudo isto, quando a menina começou a ler fluentemente e a explicar à mãe de que tratava aquela placa e como já tinha ouvido falar daquilo na escola.

“O que vai ser daquela menina?” – Respondi eu à minha amiga – “ela vai ser o que ela quiser ser”.

Imagem retirada de http://www.raalcenter.com.br/blog-conteudo.php?id=161

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *