Então mas o psicomotricista trabalha com quem?

“Mas tu trabalhas com crianças ditas normais? Achava que isso era só para quem tinha deficiência!”

“Trabalhas com velhinhos? Mas isso não era para crianças?”

“Com adultos? Mau, a outra que eu conheci da tua área trabalhava num lar!”

“Como assim trabalhas com crianças com deficiência? Achava que isso era outra profissão!”

“Assim nunca hão de ir longe…”

Nós, os psicomotricistas (e não as outras barbaridades que nos adoram chamar), somos das profissões que mais devem sofrer por trabalhar com um público diversificado. É quase como que se em todas as conversas casuais eu tivesse de vestir uma armadura, envergar uma espada, e sair em defesa da minha profissão e da dos meus colegas.

O que nem faz sentido. Os médicos trabalham com bebés, adultos e idosos, e não vejo ninguém a levantar-lhes problemas. É lógico que, independentemente da idade, o ser humano precisa sempre de cuidados de saúde. Os psicólogos têm o seu campo de trabalho durante toda a vida também, e não vejo ninguém a dizer que isso os prejudica. Parece também lógico de uma forma geral que os cuidados no âmbito psicológico não sejam próprios de uma certa idade. E o mesmo raciocínio se levanta entre quase todos os profissionais de saúde: fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, etc. Se existe uma necessidade, existe uma resposta.

Ora, é verdade que a psicomotricidade viu a sua génese na saúde mental infantil, quando um grupo de profissionais reparou que os sinais corporais e motores de algumas crianças mais não eram que o reflexo do que os seus pensamentos queriam expressar. Mas depressa se percebeu que o inverso também era verdade: aprendemos pelo corpo e pelo corpo nos exprimimos, de forma cíclica, recíproca e contínua. E depressa também se viu que este mecanismo não é próprio de um público, de uma idade ou de uma faixa etária. Nascemos assim, crescemos assim, envelhecemos assim. Somos assim.

Por isso, não compreendo quando nos tentam encaixar num espaço finito, bloqueando as nossas opções. Somos uma profissão nova e rica. Tão rica que ainda nem nós próprios entendemos bem até onde podemos ir. Mas se ainda estamos tão no início, então que sentido faz fechar já portas?

Deixem lá a psicomotricidade crescer, é o melhor para todos.

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