A mania dos adultos não ouvirem o que as crianças lhes estão a dizer

Todos os profissionais cometem erros, desde os que estão em início de carreiras, aos que já estão em piloto automático. Dos erros corriqueiros sem nenhum impacto, a erros de maior gravidade.

Os terapeutas, nomeadamente psicomotricistas, não são excepção. Hoje venho falar-vos de um erro meu. Tudo começou quando há uns meses fui contactada por um professor de educação especial para trabalhar com uma menina mais velhinha. O diagnóstico era o de autismo.

Comecei por reunir com o professor, perceber a situação da menina, e de seguida reunir com o mesmo professor e com os pais. Os pais eram amorosos, super comprometidos com a sua filha, ainda que com algumas questões ao nível da medicação. O professor era também ele notoriamente apaixonado pela sua profissão. Mas havia algo mais que unia estes pais e este professor: a forte crença de que esta menina já tinha sido capaz de muito mais do que era capaz agora… já tinha sido capaz de fazer desenhos, de categorizar por cores, já tinha sido autónoma… Tudo conquistas que vieram a ser perdidas aos poucos no decorrer do último ano, sem nenhuma explicação clara.

E foi aqui que começou o meu erro. Não em ouvir pais e professores, que todos sabemos o quão importante essas informações são. Não por ter em conta as conquistas que já tinham sido realizadas pela criança, que foram também informações importantes sobre o que era familiar para a menina. Não. O meu erro foi ter-me prendido a estas informações antes de ouvir o que a menina tinha para me dizer.

Não que ela o fosse dizer em voz alta, visto que a menina não falava. Aliás, desde que foi perdendo parte do que já conseguia fazer, a única coisa que a menina fazia era ouvir: pegava em tudo o que estava próximo da sua mão e colocava no ouvido.

Desde o momento em que a conheci que o meu grande alvo foi trabalhar afincadamente no que já tinha conseguido: investi em desenhos, investi em cores, investi em tarefas de organização e de categorizarão. Trabalhámos, trabalhámos e trabalhámos, mas por algum motivo, parecia, que não saíamos do sítio.

Já passados alguns meses, e num desespero cada vez maior, dei comigo sentada no chão, sem mais ideias, sem mais atividades, sem nada. Despida de todas as expectativas e preconceitos, e num pânico gigante de não saber o rumo a seguir agora. Neste momento, a menina pegou-me na mão e levou-a ao ouvido. Sorri. Peguei na mão dela e fiz o mesmo. Ela sorriu. Pela primeira vez, em meses.

Só aí percebi. A categorização, o desenho, o desenvolvimento motor, tudo isto era importante, mas não era o que a menina precisava. Sim, ela já tinha sido capaz de o fazer, mas quantas vezes não perdemos também nós capacidades que já tínhamos antes? Nem interessava o motivo, naquele momento, o que aquela menina precisava era de escuta, nada mais. E a partir dessa sessão, foi o que eu fiz, com todo o meu corpo.

Meses se passaram também desde esse dia. A menina hoje já sorri, já desenha e já organiza por cores. Mas porque quer, porque lhe faz sentido, porque eu mostrei que a ouvi. Porque naquela sala, ainda quem tem uma maior palavra é ela.

Retirado de http://www.direitodeouvir.com.br/wp-content/uploads/2014/03/aparelho-auditivo-aparelhos-auditivos-atenao-as-criancas-com-problemas-auditivos.jpg
A história contada não corresponde a nenhuma história real, mas antes à junção de diversas observações clínicas. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

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