A psicomotricidade na PHDA


Apesar de ser uma das perturbações com que trabalho com maior regularidade e de ser a que uso quase sempre como exemplo para apresentar o meu trabalho, tenho sempre alguma reticência em falar publicamente do trabalho do psicomotricista na PHDA….

Primeiro, porque é uma perturbação do desenvolvimento altamente deturpada. Quando comento com alguém que trabalho com crianças com autismo, ninguém questiona; com crianças com paralisia cerebral, ninguém questiona; com crianças com trissomia 21, ninguém questiona; mesmo com distúrbios emocionais, quase ninguém questiona. Mas sempre que digo que trabalho com crianças com PHDA, vem sempre uma pergunta meio com desdém: “mas isso existe mesmo? Admite lá, é má educação não é?”.

Claro que não é. A Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção é real, sempre foi. E a PHDA é francamente diferente de irrequietude motora, falta de atenção ou falta de disciplina e de limites, ainda que seja pautada pela presença dessas outras características. A PHDA é uma perturbação complicada, uma vez que passa facilmente despercebida, é alvo de descriminação e de julgamento alheio e sem fundamento e porque sim, tem sido confundida com outros sinais sem um filtro devido. Mas isto fica para outras andanças.

Hoje vamos focar-nos especificamente no trabalho realizado em psicomotricidade nas crianças com PHDA. Como comecei por dizer, as crianças com PHDA são o meu exemplo preferido para explicar a psicomotricidade e o trabalho feito em sala. Ora vejamos, são crianças que realmente têm bons pensamentos e excelentes ideias, no entanto, é frequente que não sejam capazes de os colocar em prática tal e qual como imaginaram, dada a sua dificuldade de auto-controlo. Por isso, é frequente vermos que vários adultos e crianças consideram que aquelas crianças não são capazes ou são desadequadas. Não o são… Têm é algumas dificuldades em conseguir transmitir as suas ideias. Por outro lado, são crianças que se mexem muito e não param. No entanto, quantidade não é qualidade, pelo que são crianças que apesar de se moverem muito, têm dificuldade em movimentar-se com qualidade e de forma organizada.

Conseguem imaginar algo mais psicomotor? Daí a psicomotricidade ser uma resposta tão adequada para estas crianças. Primeiro, porque não as vai impelir a movimentarem-se menos, apenas a focarem de forma orientada o seu movimento. Depois, porque vai permitir organizar o seus pensamentos e os seus movimentos em uníssono, provando a elas mesmas que são válidas e cheias de boas ideias. Ainda, a psicomotricidade para estas crianças é um espaço prazeroso e seguro, o que lhes irá permitir brincar e explorar, adquirindo a capacidade de se auto-regularem e ainda de trabalharem outras componentes de forma lúdica e sempre, mas sempre em movimento.

Atenção, como comecei por dizer, a PHDA é uma perturbação complexa e, apesar da psicomotricidade ser uma resposta para estas crianças, não é nem pode ser a única. Mas é antes um espaço terapêutico que, integrado com as restantes respostas, irá munir a criança com as ferramentas necessárias para enfrentar a vida, sempre em movimento.

 

Imagem retirada de http://boanoticia.com/criancas-hiperativas-dicas-de-como-lidar.html

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