Ele é só desajeitado, qual é o problema?


Existem várias formas de uma criança chegar a um psicomotricista. Neste caso, foi através de um psicólogo. Era um menino de 8 anos na altura. Começou na escola relativamente bem, mesmo que a sua letra nunca tenha sido óptima. No primeiro e no segundo ano conseguiu acompanhar a leitura, a noção de número e os outros conceitos que lhe iam sendo passados. Apenas a professora de expressão física e motora se queixava, dizendo que era uma criança atabalhoada, que parecia tropeçar nos seus próprios pés, que chutava no chão, que caía com frequência e que mesmo a lançar raramente acertava perto do alvo. Mas isto nunca preocupou os pais, afinal, era apenas ginástica, e era assim desde sempre, o que levou o menino então a fechar-se mais com o telemóvel e nos jogos de computador. Apenas no terceiro ano começaram os problemas a sério, segundo os pais: a letra era cada vez menos legível, a sua capacidade de permanecer concentrado ia diminuindo, fechava-se muito e parecia não ter amigos. A matéria na escola foi ficando para trás e a sua secretária estava permanentemente desarrumada. Foi aqui que o psicólogo me contactou.

O psicólogo explicou o procedimento aos pais e foi iniciada uma avaliação em psicomotricidade, ainda que com os pais desconfiados. Algumas consultas e um relatório depois, estava sentada em círculo com aquele pai e com aquela mãe… Ia passando os resultados e fazendo algumas observações, quando reparei que a estranheza inicial teimava em ficar. Para quebrar o gelo perguntei diretamente: “Passa-se alguma coisa?”

A resposta não se fez tardar por parte da mãe: “Olhe, não me está a dizer nada de especial! Sim, ele é desajeitado e sempre foi! Moramos num prédio, numa zona urbana, não há parques perto e ele nunca pede para brincar lá fora. Sempre se integrou bem com o tablete e com o computador, e de todos os primos foi o primeiro a ler, veja só! Com os jogos sempre aprendeu imenso, como se viu no 1º e no 2º ano! Agora é que se perdeu e, por isso, procurámos um psicólogo. Honestamente, não percebo o que estamos aqui a fazer. Ele é desajeitado, qual é o problema?”

Esta mãe não foi a primeira, nem será a última, a questionar como é que as dificuldades na motricidade global afetam a aprendizagem, mas tenho de dizer com muita convicção que tem muita relação, mesmo. Para começar, e porque nunca é demasiado reforçar, a primeira fonte de aprendizagem do bebé e da criança é pelo corpo, como tal, uma criança cujo corpo se encontre em desorganização, terá também ela uma percepção da realidade diferente que terá implicações na sua aprendizagem. Depois, o movimento e o tónus (essa palavra mágica que nós, psicomotricistas, tanto gostamos) estão constantemente presentes. Assim, uma criança com dificuldades ao nível motor, ou com uma perturbação do desenvolvimento psicomotor, terá dificuldades em organizar, planear, executar e re-avaliar o movimento, o que lhe trará diversas dificuldades na exploração do meio, no seu controlo e passividade, e eventualmente, poderá levar a que a criança se magoe sem intenção. Mais, se pensarmos nas nossas brincadeiras enquanto crianças, muitas delas passavam por correr, saltar, mandar, pular e cair. Uma criança que tenha dificuldades em participar nestas atividades com algum sucesso, poderá caminhar para um percurso mais solitário, onde não passe por estas provas, afastando-se do grupo da sua idade. Ao nível da escrita, a motricidade global é também fundamental, pois é a partir do controlo global que os braços, os pulsos e os dedos poderão obter a especialização necessária para poderem desenhar letras. Finalmente, obter sucesso neste tipo de tarefas dá à criança um sentimento de sucesso que irá afetar a sua auto-estima e, consequentemente, a sua disponibilidade para aprender.

Por isso, sim, a motricidade, tanto global como fina, são essenciais para toda e qualquer aprendizagem. É verdade que não disse isto tudo de uma vez à mãe, até porque não era a altura ou o local. Nessa tarde ouvi as suas preocupações com atenção e respondi às suas questões. Abri o espaço para que a criança e a família viessem a mais sessões. A magia da psicomotricidade fez o resto.

 

Imagem retirada de http://www.educacaofisica.com.br/blogs/blog-ciencia-ef/psicomotricidade-o-que-e-isso/

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