“A mãe deseja entrar e trabalhar connosco?”


A relação com os pais nem sempre é fácil, mesmo quando são eles que nos procuram. Então quando vêm os dois progenitores, não é de todo seguro que ambos estejam de acordo, sobretudo porque se sabe que, se há algo que altere a dinâmica do casal, é quando os filhos apresentam problemas ou necessidades especiais. O casal que me procurou veio encaminhado por psicologia, mas para o pai não havia dúvidas: fazia todo o sentido que o seu menino fosse acompanhado em psicomotricidade. No entanto, a mãe sempre se mostrou de pé atrás. O atraso do menino era bastante notório e a mãe pensava que o caminho era outro. Ah, e nunca tinha ouvido sequer a palavra psicomotricidade, pelo que tudo lhe parecia uma mezinha moderna.

Passaram-se várias sessões em que o semblante da mãe não se alterava e em que todos os ganhos da criança eram atribuídos a tudo o que era exterior, como que se o tempo que passava em sessão uma vez por semana comigo ainda fosse prejudicial para o seu desenvolvimento. Ao fim de um pouco mais de um mês, reparei que a postura da mãe começava largamente a influenciar o comportamento da criança em sessão. Mostrava-se mais sério, desvalorizava todos os seus ganhos e controlava a alegria que tinha em entrar na sala. Chegada à sala de espera, a criança mostrava-se com ar de desdém, como se as gargalhadas que tinham sido vivenciadas na sala se tivessem evaporado.

Ao observar este impacto, fui direta ao assunto: “a mãe gostaria de entrar e trabalhar connosco hoje?” Ao início a expressão foi de estranheza… Não era necessário, iria apenas atrapalhar, tinha que fazer… Mas o sorriso na cara do filho era tão grande, que a mãe não teve como não ir. Ao chegar à sala encostou-se a um canto, procurando a cadeira mais próxima para se sentar.

“Mãe, aqui não nos sentamos nas cadeiras, sentamo-nos no chão! Ah, e tens de tirar os sapatos!”

A estranheza tinha passado a estupefação. Meio a medo descalçou os sapatos e veio-se sentar ao pé de nós. A criança tinha completo conhecimento da rotina da sessão, e com a alegria de poder mostrar à mãe o que já sabia, tomou conta de tudo. Tarefa após tarefa, os sucessos eram múltiplos, mesmo em atividades que nunca tinha conseguido fazer. A alegria de poder mostrar à mãe o que se passava naquela sala mágica era a sua principal motivação para se manter concentrado, organizado e feliz. E perante tamanha realização, a mãe sorriu.

No fim da sessão, já com grande parte das barreiras postas de lado, chegou a hora de calçar. A mãe chamou pelo filho e pediu-lhe para trazer os sapatos.

“São sapatos muito complicados de calçar, sabe”.

Sorri e olhei para o rapaz.

“Mostra lá como tu te calças bem sozinho”

Dito e feito, com uma facilidade que nunca tinha visto. Depois sim, chegou perto da mãe e pediu ajuda para atar, e aí já foi a mãe a ensinar, com calma e com esperança, o próprio filho.

Depois deste dia muita coisa mudou. O papel da mãe passou a ser crucial e os ganhos obtidos em casa começaram até a ser maiores do que aqueles que tinha em sessão. Várias lições foram tiradas nesta sessão, a primeira foi que aprendi que a sala de psicomotricidade tem uma porta aberta a quem quiser entrar. E a mãe aprendeu o que era este mundo da psicomotricidade.

 

Imagem retirada de http://rsaude.com.br/paranavai/materia/psicoterapia-infantil/8915

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