A tortura da hora de almoço


Imagine que chega a sua hora de almoço. Ah…. finalmente. Após uma manhã extenuante é livre de se levantar e de ir almoçar com os seus colegas. Vai poder matar a fome que se foi acumulando de manhã, rir-se e pôr a conversa em dia sem sentimentos de culpa. Agora imagine que escolhe um restaurante. Chega, senta-se e comenta uma piada com o colega do lado. Ambos riem-se. Nisto, vem uma das empregadas do restaurante com cara muito sisuda: “então? silêncio!”. Ficam um pouco atónitos, mas consentem em falar um pouco mais baixo…  pode ser que tenham incomodado outros clientes, se bem que os restantes também se encontram em silêncio… Vem o menu para a mesa, mas tem apenas uma escolha à disposição, ainda por cima, um prato que detesta… Ainda tenta perguntar se seria possível um outro prato, mas depressa recebe a resposta: “ah, deve ter a mania que é especial… Não temos cá tempo de um prato para cada um! Quer ver… Come o que há e acabou”.

Espera em silêncio pelo seu prato, que acaba por vir ainda com pior aspeto do que o que estava à espera. Os seus colegas, que até toleram melhor o prato, comem depressa e rapidamente são convidados a sair para aproveitar o dia lá fora. Ainda existe um que tencionava ficar perto de si, para não interromper a conversa, mas o gestor do restaurante teima que o seu colega tem de ir lá para fora. E assim, ficou sozinho, com um prato que não escolheu e que detesta. Rapidamente lembra-se que já tinha comido a sopa e que faltam apenas 2 horas para o lanche, não será por não comer tão bem hoje que haverá problemas. Pousa os talheres e prepara-se para sair. Rapidamente aparece de novo o gerente. “Nem pensar! Come e acabou”. Lá acaba por se sentar, meio contrariado a olhar para o prato. “Vá, rápido, toca a comer que temos de lavar isto tudo!”. Só olhar para o prato o repugna: tem mau aspeto, está mal temperado e por esta altura está frio. “Vá vá, pelo menos 5 colheres”. Já não consegue sequer olhar para lá e as lágrimas começam a escorrer pela sua cara, pela humilhação de alguém o ter encurralado naquela situação. Lembra-se dos seus colegas lá fora, o que só faz aumentar a sua raiva. “Ah, é escusado chorar, 5 colheres e pode ir, mas menos que isso nem pensar”. E assim passou a sua hora de almoço. Acabou por comer as 5 colheres, é verdade, nem que tenha sido para não olhar mais para aquela empregada, mas o enjoo que passou o resto do dia, isso ficou consigo o resto da tarde, tendo completamente alterado o seu trabalho o resto do dia.

Voltaria a este restaurante? Também me parecia que não. Mas a verdade é que a maioria das nossas crianças vive com esta realidade todos os dias. Não é de todo raro chegar e encontrar um ou dois miúdos abandonados na cantina, com o prato completamente frio e com um adulto em cima a gritar que se não comer não sai, enquanto a criança usa a melhor ferramenta que tem para mostrar o desespero: chora. Se o que a criança mais quer é brincar, imaginem a tortura que não é escolher não brincar só para não comer determinado prato.

Eu compreendo que as crianças possam ser complicadas na hora de comer, e também entendo que não é sendo conivente que se leva a criança a ingerir todos os nutrientes que sabemos que ela necessita. Mas uma coisa eu também sei, não é humilhando a criança e fazendo-a perder horas de almoço de forma consecutiva que construímos uma relação saudável com a comida. Comer é também uma experiência sensorial: tem texturas, temperaturas e sabores e a criança deve aprender a lidar com eles, mas de forma exploratória e positiva. A criança deve perceber que a comida é algo essencial para o seu funcionamento e que cada alimento tem as suas forças que serão necessárias para o seu crescimento. É necessário que o processo seja mais do que ver um prato mal amanhado à sua frente: é necessário que a criança conheça os alimentos, as frutas, os legumes, que os cheire, que saiba de onde vêm, que participe.

Porque se não aceitaríamos que um gerente de um restaurante nos impingisse algo que não queríamos, o mesmo não deve ser feito às nossas crianças.

Imagem retirada de http://www.tamilan24.com/contents/?i=75208

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