Não tenho pena, tenho orgulho!

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É tão mais fácil ser criança e conhecer novas crianças… Já repararam que raramente as crianças fazem conversa de ocasião? As crianças normalmente falam e fazem sobre e com aquilo que gostam. Brincam, jogam à apanhada, comentam desenhos animados e cantam novas canções. Mesmo se forem de países estrangeiros e não perceberem absolutamente nada do que o outro está a dizer. Elas focam-se no que é importante e no que ambas compreendem e a partir daí constroem uma relação. Penso honestamente que parte da minha paixão em trabalhar com crianças vem daí, não existem momentos de julgamento ou constrangedores.
Contudo, à medida que as crianças vão crescendo, esta capacidade vai-se apaziguando e vai dando origem a conversas não tão interessantes. Então quando chegam a adultos, parece que os temas de conversa e a capacidade de se relacionar se diminui a um grupo restrito de assuntos, o que pode ser um tanto aborrecido.
Um dos temas que os adultos mais gostam de conversar é sobre o trabalho. Quando uma criança conhece outra, pergunta o nome, a idade e se querem jogar à bola. Quando um adulto conhece outro, muitas vezes ainda antes do nome e da idade, perguntam: “Então, e o que fazes da vida?”
Como já disse aqui anteriormente, este tipo de conversa não me perturba nada, e digo sempre com muito orgulho: “sou psicomotricista, ou seja, sou terapeuta e trabalho com crianças com necessidades educativas especiais”.
Primeiro vem a estranheza pelo nome da profissão, normal portanto, de seguida vem a pergunta se é fisioterapia ou psicologia… por fim, vem a pergunta de com quem é que trabalho. De novo, sou obrigada a reformular e a explicar que neste momento trabalho em escola e em clínica, com crianças, sobretudo com crianças especiais…
“Ah… trabalhas com deficientes?”
Respiro fundo… “trabalho com algumas crianças com deficiência sim, mas trabalho sobretudo com crianças, ponto.”
“Ah… e trabalhas com crianças daquelas que não se sabem mexer?”
Respiro fundo… “trabalho com algumas crianças que precisam de ajuda para aprenderem a se moverem.”
“Ah… e trabalhas com aquelas crianças que não falam?”
Respiro fundo… “trabalho com crianças que não verbalizam sim, mas que comunicam à mesma.”
“Ah… e trabalhas com aquelas crianças que não conseguem aprender?”
Respiro fundo… “trabalho com crianças com dificuldades em algumas aprendizagens, mas todas as crianças aprendem, apenas de formas diferentes”
“Ah… coitadas, não tens pena delas?”
Aqui já não respiro mais fundo. Porque pena sinto apenas da ignorância. Pena sinto apenas de quem não consegue ver além da sua realidade. Pena sinto de quem julga a diferença como inferioridade, não vendo que a maior força de uma sociedade é a sua diversidade. Pena sinto de quem se fecha em pré-julgamentos feitos e não vê além dos rótulos. E sabem, nenhuma das minhas crianças é assim. Todas as minhas crianças são diferentes, todas as minhas crianças têm as suas fraquezas, e sobretudo as suas forças. Todas as minhas crianças são desafios, para mim e até para elas próprias. Todas as minhas crianças são obstáculo e superação. Todas, sem excepção. Mas se há coisa que nenhuma das minhas crianças é, é serem coitadas. As minhas crianças são guerreiras, lutadoras e sonhadoras, mesmo nos dias em que se dizem cansadas e me tentam engonhar para não progredir. As minhas crianças são histórias de vida e sonhos de futuro, mesmo nos dias em que me dizem não serem capazes e não quererem. Todas as minhas crianças, todas as que já foram, as que são e as que ainda estão para vir, são inspiração para cada dia de trabalho e para cada hora de sessão.
Por isso, não tenho pena das minhas crianças não, mas orgulho? Mal me cabe dentro do peito.

 

Imagem retirada de http://macaetips.com/categoria/para-criancas/

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