Bastões, bolas e a magia de brinquedos de madeira

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Quando comecei a ir a entrevistas de emprego, sobretudo em instituições que não tinham psicomotricidade, faziam-me sempre a mesma pergunta: “mas de que materiais precisa?”. Precisar, precisar, de forma obrigatória, não precisava de nenhum… a verdade, é que a psicomotricidade necessita apenas de espaço, uma vez que se pode fazer um número infinito de atividades sem recorrer a nenhum material, mesmo que tal exija um esforço imenso de imaginação e criatividade… “então isso quer dizer que não quer material nenhum?” Bem, aí a questão já era um pouco diferente… Querer, queria imensos! Imensos brinquedos, imensos bonecos, imensos materiais que poderiam construir todo um imaginário rico e toda uma sessão facilitada por outros objetos mediadores.

E o mesmo voltou a acontecer à relativamente pouco tempo. Era uma menina que desde o início se apaixonou pelo meu “saco mágico”. Tudo o que de lá saía era fantástico e transportava-a para um outro mundo. De tal forma que, sempre que saía para perto do pai fazia questão de dizer: “e brinquei com a bola mágica, com o pote mágico, com os sapatos mágicos, com as molas mágicas”… tudo era mágico. O pai que, por diversos motivos, nunca tinha entrado na sala, certo dia pediu-me autorização para o fazer.

Desde sempre que acredito que a porta da sala da psicomotricidade deve estar aberta, sobretudo se esta for a vontade da criança, que era o caso. O pai entrou, meio sem saber o que esperar, e depressa a desilusão tomou conta do seu olhar. Ao entrar dentro da sala, junto do meu famoso saco, encontrou apenas uns arcos, uns bastões, umas bolas, uns legos, diversos blocos de madeira, uma corda e pouco mais… no fundo apenas brinquedos. Nada de objetos mirabolantes, de máquinas sofisticadas, no fundo, nada de mágico…

“Não estou a entender… Ela passa aqui uma hora consigo, está a prestar uma terapia, ela passa a vida a dizer que tudo aqui é mágico, e depois só encontro brinquedos que ela podia perfeitamente lá ter em casa, se não mais antigos até. Afinal o que é que ela faz aqui que não podia fazer em casa?”

Esta pergunta foi absolutamente avassaladora. Sorri. O pai tinha razão, no fundo, eu tinha apenas brinquedos.. brinquedos e muita intencionalidade. É que sabem, a minha intenção não é fazer artes mágicas, mas sim pegar nas dificuldades daquela criança e diminuir as mesmas, enquanto exploro ao máximo as suas potencialidades a todos os níveis: motor, cognitivo, afetivo. O que eu desejo é criar um ambiente em que aquela criança goste de estar, e que caminho outro que não através de brinquedos manipuláveis que ela goste? Depois, não é de todo minha intenção promover atividades que em nada se relacionem com o quotidiano da criança. Aliás, o que eu desejo é que ela adquira as suas novas competências e que  rapidamente as transfira para o seu quotidiano. O facto de serem brinquedos simples permite isso com muito mais facilidade. Finalmente, eu quero que a criança possa explorar os brinquedos sem que os mesmos sejam demasiado para o que ela consegue lidar. Por isso mesmo, baseio-me muito em cores e texturas, daí a importância dos brinquedos de madeira, das bolas de picos, das cordas e dos balões.

Durante aquela hora que a criança está ali comigo, apoio-me no material claro, e uso o mesmo sobre as mais diversas formas. Mas sobretudo, oriento-me sobre a minha intencionalidade e as necessidades daquela criança. Esforço-me por proporcionar momentos prazerosos que lhe facilitem a aprendizagem. E para isso brincar é tão bom.

 

Imagem retirada de http://artesanato.culturamix.com/curiosidades/brinquedos-educativos-de-madeira

 

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