“Não te metas que não estou a falar contigo”


Já desde há uns tempos que tinha reparado que sempre que ia ao recreio buscar aquele menino, aparecia sempre um outro com uma lista em punho de comportamentos desadequados.

“Ah, nem sabes, ele hoje respondeu mal à professora”, “Ah, nem imaginas, ele hoje esqueceu-se dos trabalhos de casa”, “Ah, se tu tivesses visto, hoje cuspiu para a cara de uma colega ao almoço”, e por aí adiante.

Uma lista infindável de reprimendas para com o colega que eu ia buscar, mesmo sem saber quem eu era, mesmo sem ter o menor conhecimento do trabalho que eu realizava. De todas as vezes tentava sempre enfatizar todos os ganhos que a criança tinha enquanto desvalorizava tudo o que me era dito:

“Tanto quanto sei, ele tem sido muito prestável na sala de aula”, “Comigo porta-se sempre bem e é muito trabalhador”, e dizia para ele voltar para a brincadeira, tentando dar a entender que, pelo menos comigo, não valia a pena entrar por esse jogo, pois não tinha saída.

Mas a verdade é que este comportamento foi-me ficando na cabeça… Estamos a falar de uma criança pequena, entenda-se. De onde vinha este sentimento de querer rebaixar o outro e qual a sua necessidade de fazer o colega se sentir mal, mesmo sem saber quem eu era? Esta falta de empatia no geral fazia-me muita confusão.

Certo dia, mais por incompatibilidade minha que por outra coisa qualquer, troquei o horário da sessão para o fim da hora de almoço. Ora, acontece que quando cheguei a minha criança ainda estava a almoçar, estando o seu colega sentado perto de uma auxiliar de educação. Ainda nem tinha tido oportunidade de piscar o olho ao meu rapaz, já estava a ouvir a auxiliar:

“Ai é você que trabalha com esta peça? Prepare-se, hoje está insuportável! Ainda não acabou de comer, está para ali a remoer a comida, já cuspiu a um colega, já pisou uma professora, já respondeu mal, já o ouvi a dizer asneiras…” já, já, já, já, um infindável mar de “jás” de todos os comportamentos errados que o meu menino tinha conseguido ter entre as 9h00 e as 13h00. Este mar de queixas era apenas interrompido pela tal outra criança, que ia tentando reproduzir as queixas, intercalando-as com outras, levando sempre a mesma resposta: “Não te metas que não estou a falar contigo” “cala-te que ninguém te chamou para o assunto”, enquanto continuava a berrar todas as peripécias feitas, sempre ditas com a maior negatividade possível.

Durante todo aquele tempo, apenas pensei que agora percebia de onde vinha a falta de empatia. Naqueles 10 minutos que a auxiliar teve para me conhecer, não disse um único ponto positivo sobre aquela criança. Pior, disse todas as críticas em voz bem alta, e mesmo no meio das outras crianças, ainda obrigando estas a estar caladas, como se não tivessem ouvidos, olhos ou capacidade de raciocínio.

Quando vamos perceber, de verdade, que as crianças aprendem com o nosso comportamento? Quando vamos entender que se queremos crianças empáticas, temos de começar por nós? Quando vamos ser capazes de ver que se queremos crianças mais pacientes e capazes de se ajudar, temos de começar nós por melhorar a nossa capacidade de resistência à frustração?

Não sei a resposta a nenhuma destas perguntas, mas seria bom que fosse o quanto antes, porque mandar calar e olhar para o lado não serve, sobretudo porque elas podem estar caladas, mas ouvem tão bem

Imagem retirada de http://listas.20minutos.es/lista/frases-de-los-padres-que-pueden-traumar-a-los-hijos-341044/

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2 comentários Adicione o seu

  1. Daniel Lago diz:

    Gostei muito do teu texto Ana. É isto mesmo! Análise perfeita.
    As pessoas, principalmente as que lidam com crianças, deviam ser afetuosas com elas, compreensivas e procurar conquistá-las pelo coração.
    Beijinhos e bom trabalho.

    1. AnaFonseca diz:

      Muito obrigada Daniel! Mesmo que por vezes nos falte a paciência, temos sempre de nos lembrar que tudo o que fazemos tem impacto! Muito obrigada pelo comentário! Beijinhos!

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