A sala com cor, mas sem personalidade

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Estava ainda no corredor e já ouvia os berros ao fundo da sala: “Partiram outra vez a caixa? Impressionante! Não têm cuidado nenhum!”. Era já uma sala de 3º ano, pelo que, em parte, a professora teria razão… Seria já expectável que as crianças tivessem algum cuidado com o seu material. No entanto, este discurso e estes berros eram frequentes. Era como que se fosse normal que as crianças quebrassem e partissem o material comunitário daquela sala. E isso já seria um pouco mais estranho. Acidentes acontecem, mas são acidentes. Quando se tornam regulares, normalmente é porque algo mais está por trás.

Sobretudo porque na sala ao lado, também do mesmo ano, onde tinha uma outra menina, nunca ouvia este tipo de queixas. Lá todos os meninos zelavam pela sala e cuidavam dela com muito brio. Uma mesma escola, meninos diferente, é verdade, mas da mesma idade… A única grande variável era mesmo a professora.

Certo dia, para perceber melhor o porquê da diferença dos comportamentos, decidi olhar com maior atenção para as salas. A sala do primeiro menino era muito colorida, cheia de bonecos perfeitinhos, impressos em papel de boa qualidade. Todas as paredes apresentavam esquemas imaculados sobre as matérias que estavam a dar, com diferentes tipos de letra, mas todos eles harmoniosamente concebidos.

A segunda sala, a da menina, não tinha todo este requinte. Pelo contrário, podia ter várias cores, mas todas elas desalinhadas, com imensos desenhos livres feitos pela turma. Tinha até uma tela gigante, muito esborratada, muito pisada, onde se notavam nas pontas os pés e as mãos das crianças. A matéria escolar estava também exposta, mas toda com desenhos feitos à mão, ora pela professora, com desenhos bonitos, ora por apresentações das crianças, o melhor que elas sabiam fazer.

Para mim tornou-se claro. A grande diferença entre uma sala e outra, era que a segunda pertencia às crianças, a primeira não pertencia a ninguém. A segunda existia apenas uma no mundo, a primeira estava lá para aquelas crianças, da mesma forma que tinha estado para as anteriores e iria estar para as seguintes.

E isso levou-me a outra conclusão. Não é por se ter materiais muito elaborados ou inovadores que levamos a criança a compreender, aprender ou cuidar melhor. A criança, no fundo, vincula-se ao que lhe pertence, e nada melhor que esse sentimento do que o poder fazer, o poder mostrar a sua criatividade ao potencial máximo.

A partir desse dia compreendi. A melhor decoração para sala de crianças, continua a ser aquela que elas próprias fazem.

Imagem retirada de http://doitri.com/ideias-para-jardim-de-infancia/

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