Sobre os pais que educam e os professores que ensinam

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Começo desde já por avisar que este texto vai ser extremamente pessoal. É que sabem, esta expressão, que tem vindo a ganhar poder, é verdade, não é nova. Já quando era miúda e ouvia de algum professor que tinha feito algum reparo de educação, vinham logo diversos pais de punho em riste a dizer: “preocupe-se com a forma como ensina o meu filho, que da educação trato eu”. E o contrário também. Quando os pais tentavam acompanhar algum método novo que os mais pequenos aprendiam na escola, e pediam aos professores que o explicassem, quantas vezes não surgiu o pensamento de: “educam mas é as crianças, que para ensinar já cá eu estou”.

Acho que todos somos capazes de reconhecer este discurso. Contudo, a minha história sempre foi bem diferente… Se calhar tive sorte… Tive a sorte de ter a melhor professora primária que poderia ter tido, a quem devo tanto, mas tanto da minha educação. Não havia dia em que esta professora não nos lembrasse da importância de sermos gentis para os outros, de sermos compreensivos. Teve longas conversas connosco de como tratar bem os animais, sobre a importância de pedir desculpa, sobre a importância de sermos nós mesmos. Lembro-me que não nos podia ver triste, que logo vinha aferir o que se passava. Se nos visse doentes, ficava preocupada. Foi uma professora que sempre me fez acreditar em mim e no meu potencial. Lembro-me que era uma professora capaz de olhar para aquela turma e ver em todos nós potenciais diferentes. E puxar muito e muito por eles. Grande parte das regras de boa educação e de princípios de valor aprendi com ela.

Quando saí da primária, passei de um colégio pequeno para uma escola enorme. Mais de 2000 alunos dizia-se na altura. Lembro-me que estava aterrorizada com o que ia encontrar, e com tanto medo que os professores nunca chegassem a saber quem eu era. Como estava enganada. Logo encontrei professores que me defenderam, que estavam atentos ao meu estado de espírito, que me incentivaram a percorrer atrás dos meus sonhos, que me ajudaram a superar medos. Lembro-me que era tímida, muito tímida, e que duas professoras me ajudaram a superar a timidez. Hoje em dia, para além de psicomotricista, sou formadora e falo para dezenas de pessoas. Devo-o a elas.

Quando passei para o liceu, o meu medo voltou a repetir-se. Mais uma vez, estava errada. Tive uma diretora de turma que foi uma luz. Chamou-me várias vezes para a beira dela para me dar a mão. Deu-me raspanetes bem merecidos, ajudou-me a ganhar foco e lembrou-me a importância de ser verdadeira. Ainda hoje lhe devo muito.

Quando cheguei à faculdade, mais uma vez, senti receio de que os professores fossem apenas professores. Como estava errada. Tantos professores foram muito mais que isso. Foram mentores. Ensinaram-me sobre ética, sobre rigor, sobre disciplina e trabalho. Ensinaram-me sobre valores e regras. Sobre gestão do tempo e pessoal. Ensinaram-me a ter ambição. Apoiaram-me. Ampararam-me nas minhas quedas e aplaudiram as minhas vitórias. Fizeram-me acreditar que poderia ser uma boa profissional. Devo-lhes isso.

E os meus pais? Se é verdade que uma grande parte dos valores que tenho, devo aos professores, sei que os meus pais sempre foram a minha rocha fundadora. As minhas crenças, a minha identidade, foi construída com eles, desde o primeiro dia, desde o primeiro passo. Mas não me ensinaram também eles coisas? Levaram-me a castelos, a palácios e a museus. Viram filmes comigo, sobre história, sobre ciência e sobre política. Explicaram-me tanta vez o telejornal. O meu pai foi meu explicador de matemática até a adolescência se ter intrometido. A minha mãe foi até à minha professora primária com o caderno na mão para esta lhe explicar as contas de dividir.

Nunca na minha vida senti que uns me ensinassem e outros me educassem. Senti apenas que me fizeram crescer. E senti que o faziam em conjunto. Sempre.

A eles, devo-lhes o mundo. Por eles, faço o que faço. Não porque uns me ensinaram e outros me educaram, mas antes porque todos me fizeram pessoa.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Finalmente alguém que fala contra a corrente. Quando um professor se vê apenas como um instrutor e recusa o seu papel de educador é verdadeiramente triste. Obrigada pelo seu testemunho. Ah, a propósito, sou professora e mãe.

    1. AnaFonseca diz:

      Muito grata pelo seu comentário! Penso que muitas vezes o que fala é mais o cansaço dos professores. A verdade é que a grande maioria dos professores passa um exemplo bastante forte e muito positivo, mesmo quando não se apercebem. E a criança aprende em todos os domínios sempre, de todas as partes. E ainda bem que é assim! Continuação de bom trabalho e de tudo de bom!

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