O porquê de termos de deixar as crianças ficarem aborrecidas


O final do período letivo nunca é fácil. No geral as crianças estão cansadas, os professores estão cansados, o pessoal auxiliar está cansado, e mesmo os pais já estão cansados. São semanas que apenas passam melhor pelas festas e ensaios e pela luz ao fundo do túnel que nos diz que as férias estão a chegar.

Contudo, já no mês de julho, uma mãe comentou comigo que já não sabia o que fazer com o filho. Entendamos, o menino está na barreira do crescimento, com um pé na infância e o outro já lançado para a adolescência. Naquela terrível idade de que quer fazer tudo, mas ainda não tem autonomia para fazer quase nada. E segundo a mãe, as férias, mais do que o descanso esperado, têm-se apresentado como um pesadelo. O menino queixa-se de tudo, não apresenta motivação para fazer nada, tudo o aborrece e os seus comportamentos de oposição têm começado a dar sinais de vida.

Este menino não é o único. Apesar da maioria das crianças adorar estar de férias, existe efetivamente uma tendência para que, uma vez de férias, estas se apresentem sempre como aborrecidas. O que é de alguma forma lógico. Vejamos, durante o ano letivo, as crianças têm o tempo altamente estruturado, o que quer dizer que desde o momento em que se levantam, até ao momento em que se deitam, as crianças têm horas para tudo: ir para a escola, ir para o almoço, ir para a natação, fazer os trabalhos de casa, arranjar para ir dormir. Por vezes, entre lanches e idas à casa-de-banho, até mesmo o intervalo é cronometrado dentro de um horário bastante apertado. As tarefas que realizam durante o dia podem não ser sempre animadas, podem até causar tédio, mas existem, são obrigatórias, previsíveis e com muito pouco controlo da criança.

Nas férias acontece quase o contrário. Excepto para as crianças que frequentam colónias, onde o horário escolar quase que se estende por mais um mês, as crianças perdem grande parte do nível de atividade física e intelectual que costumam ter durante o ano letivo. Mesmo em atividades de suposto lazer, como ir para a praia, a criança encontra-se num momento livre, com infinitas possibilidades para explorar.

E o problema da mãe era esse, é que mesmo nesses momentos, tudo continuava a ser aborrecido para o menino. A mãe ficou boquiaberta perante a minha resposta, mas repito-a de novo: óptimo! As crianças aborrecerem-se é óptimo! Reparemos, numa sociedade em que as crianças pouco escolhem, a sua imaginação e criatividade são constantemente cortadas e moldadas ao tempo definido pelos adultos. As férias, onde estas restrições existem menos, apresentam-se como a oportunidade ideal para a criança explorar. É verdade que o aborrecimento é no geral frustrante, mas é também necessário lidar com essa frustração. É exatamente nesse momento em que a criança se sente entediada, que, caso a deixem, irá procurar formas de se entreter, deixando o seu pensamento criativo ganhar asas e inventar jogos, tarefas, atividades e formas de contactar amigos ou conhecidos.

Compreendo a preocupação dos pais que, perante uma sociedade cada vez mais digital, se preocupem que este aborrecimento seja apenas colmatado com videojogos ou plataformas digitais. Mas esta tentação pode ser contrariada, não retirando completamente, mas negociando o tempo diário de utilização de tecnologia. Acabado esse tempo, cabe à criança explorar a casa, o jardim, o quarto e encontrar, mesmo nos objetos mais simples, a plataforma de lançamento para uma nova história

Por isso, sempre que uma criança me responde: “estou aborrecida, não há nada para fazer”, eu sorrio. A sua próxima aventura está prestes a começar.

Imagem retirada de http://revistacrescer.globo.com/Criancas/Comportamento/noticia/2017/02/tedio-saiba-por-que-ele-e-importante-para-o-seu-filho.html

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