A escola que não era para crianças


Num novo ano letivo começamos sempre com as esperanças renovadas e com vontade de conhecer novas realidades. E por isso, eu não poderia estar mais em êxtase por poder conhecer uma nova escola e um novo espaço, sobretudo por ser um espaço com crianças pequenas.
No entanto, ainda o carro não estava estacionado e já se podiam ouvir os berros dos adultos bem cá fora. Fui entrando a medo, a tentar não perder a motivação, e fui percebendo uma fila composta de crianças. Olhei para elas e perguntei porque estavam cá fora. “Estamos de castigo”.
Tantas crianças de castigo, pensei. Enfim, tentando não desmoralizar, entrei e notei que existiam cerca de 30 crianças com idades entre os 2 e os 5 anos, para apenas duas pessoas em plena hora de almoço. Não apenas isso me chamou a atenção, como também o cheiro a tinta fresca pela sala.
“Sai daí, não toques na parede, já te disse que é proibido!!!”. Observava a cena de uma adulta a mandar, aos berros, sentar uma criança de 2 anos, por esta se ter levantado e ter tocado numa parede. Nisto, a diretora aproximou-se de mim.
“As crianças de hoje em dia estão impossíveis, não conseguem seguir regras nenhumas”.
Perguntei-lhe, com delicadeza, o porquê da regra de não poderem tocar nas paredes.
“Ah sabe, estamos a pintar as paredes da escola, neste momento estamos a pintar as do corredor, mas invariavelmente também vamos pintar as do refeitório e as da casa-de-banho, por isso decidimos que o melhor era impôr a regra de que não podiam tocar em nenhuma parede.”
“Ah, para portanto não sujarem as mãos que depois levam à boca, é isso?” – tentei eu racionalizar.
“Não, isso nem sei se faz mal, é mais para não estragar a parede, que estas obras são caríssimas.”
Tentei disfarçar o meu espanto com outra pergunta: “Mas porque agora em outubro e não no verão em que estavam fechados?!”
“Fechar? Nós não fechamos nunca. Já viu a quantidade de dinheiro que eu iria perder se fechasse este espaço?!”

Podem respirar, esta escola não existe, ou melhor, eu não trabalho em nenhum jardim de infância que tenha estas políticas. Mas não trabalho agora, porque sim, já trabalhei num local em que uma situação idêntica a esta aconteceu, e acredito que aconteça em vários sítios, mesmo que representem uma minoria.

Sim, infelizmente, acredito que existem adultos que considerem que as crianças são computadores programados a quem se pode dar a ordem de não tocar na parede, sem motivo nenhum aparente, e que estas, em plena fase de exploração do mundo, obedeçam. Sim, infelizmente sei que existem diversos adultos que, ao abrirem uma creche ou uma escola, têm como principal objetivo ganhar o máximo de dinheiro possível, independentemente das condições.

Não me tomem como inocente, eu percebo que estes negócios sejam isso mesmo: negócios e que, como tal, requeiram dinheiro.

Eu compreendo isso tudo. O que eu não compreendo é como é que certos adultos conseguem gritar a plenos pulmões, dando ordens sem nexo e quase impossíveis, em condições nada propícias e achem isso lógico. Mas depois, fiquem muito espantados quando uma criança de dois anos toca numa parede.

Imagem retirada de http://maternar.blogfolha.uol.com.br/2016/05/23/por-que-nao-devemos-colocar-crianca-de-castigo-para-pensar/

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