Sobre a alimentação nas escolas


Ao contrário da maior parte das histórias que eu conto aqui, que na verdade juntam um pouco de diversas realidades, mas nunca correspondem a uma criança específica, esta história que aqui conto hoje já aconteceu, mais do que uma vez, mais do que em uma escola.

Numa altura em que se debate o que se come nas escolas e sobre a dificuldades que existem em pais de conseguir verificar o que se passa na hora de almoço, eu posso-vos dizer que sou uma das adultas privilegiadas que muitas vezes atravessa cantinas quando tenho de ir buscar alguma criança. E a verdade é que já vi coisas muito estranhas, e que provavelmente iriam enfurecer qualquer adulto que seja pai.

Uma das que mais me marcou foi exatamente um menino que estava na hora de almoço, geralmente conto com bastante tempo para os meninos almoçarem em calma, não querendo quebrar essa pausa de descanso. No entanto, quando cheguei à escola a comida ainda lá estava, toda. Ao ver-me a aproximar, a contínua veio fazer o relato do que se costumava passar às horas de almoço: “nunca come nada”, “isto é um desatino”, “nota-se que em casa só deve comer porcaria”, “quanto quer apostar que passa a vida a comer hambúrgueres e cachorros?”, e mais umas quantas que poderia aqui enumerar.

Atenção, existem crianças efetivamente difíceis para comer, e existe cada vez mais uma falha ao nível da estimulação gustativa, o que faz com que as crianças frequentemente não consigam integrar alimentos novos e diferentes na sua alimentação. E se calhar até era este o caso. Mas a verdade é que quando olhei para o prato da criança estava apenas uma mistura meio espapaçada e meio crua de cenoura e batata cozida. Posso-vos dizer que tenho uma alimentação equilibrada, mas se me colocassem aquele prato à frente, o mais provável é que também me fosse difícil comer tudo até ao fim. Também já vi casos de comida mal cozinhada, em pouca quantidade ou só de batatas com uma tira de carne. Também já assisti a cenas em que o almoço era algo que as crianças efetivamente gostavam e comiam com vontade, mas em doses mínimas e em que não podiam repetir.

E em todos os almoços, encontro crianças sentadas, muitas vezes de lágrimas nos olhos, a olhar para um prato de comida fria que muitas vezes são obrigados a comer sobre berros e gritarias. E o que a mim me coloca algumas dúvidas, é que raramente encontro adultos a comer ao mesmo tempo a mesma comida que as crianças. De facto, o mais comum é encontrar estes adultos depois, numa sala diferente, a comer a comida que trazem preparada de casa, ou então em bares, cafés e restaurantes junto da escola.

O que não tem problema nenhum, atenção. Todos os adultos devem ter o direito de sair do seu local de trabalho, almoçar num sítio sossegado, carregando energias para o resto do dia. A minha questão principal é, se um adulto considera necessário comer uma refeição completa e equilibrada, de forma a conseguir trabalhar o resto do dia, em paz e descanso, num ambiente seguro e confortável, então, porque é que sujeitamos as nossas crianças ao que se anda a passar nas cantinas deste país?

Imagem retirada de http://brasilescola.uol.com.br/saude-na-escola/cantinas-escolares-saudaveis.htm

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