Como explicar os incêndios às crianças


Infelizmente os incêndios estão na ordem do dia, trazendo a devastação para tantas terras, para tantas famílias, para tantas casas e mesmo para tantas crianças. Por isso, não só as crianças que viveram esses momentos de terror e têm agora as suas vidas completamente alteradas sofrem com esta realidade, como também as restantes crianças passaram os últimos dias a ser bombardeadas com a mais variada informação de forma quase permanente.

Assim, impões-se a questão: deve-se falar deste assunto com as crianças? Como o explicar? Para ajudar de alguma forma, seguem de seguida alguns pontos de reflexão que espero que possam de alguma forma orientar este assunto. Ainda assim, perante um assunto tão sensível, gostava de realçar, cada criança é uma criança e cada família é uma família. Sobretudo nesta altura tão difícil, não nos podemos esquecer que diversas crianças estiveram expostas de diferentes formas a esta calamidade que assolou o nosso país, pelo que o que é verdade em alguns casos poderá não o ser em outro.

Esteja atento aos sinais corporais da criança

Como psicomotricista não poderia começar sem ser pelo mais evidente: esteja atento  a alguma alteração na criança, tanto no seu comportamento, como no seu discurso ou ao nível corporal. Se se encontra mais assustadiça, com uma postura mais tensa, com alterações no sono, mais pesadelos, ou mesmo mais agressiva, com uma maior repetição no discurso e com perguntas mais focadas no fogo, incêndios e afins. Mesmo que não se aperceba de que a criança tenha visto ou ouvido algo relacionado com o assunto, e mesmo que ela não pergunte de forma direta, é de extrema importância estar atento a este tipo de sinais que podem ser um alerta para que algo não esteja bem ou que esteja a perturbar a criança.

Tenha em atenção ao que a criança é exposta e à informação que já tem

As nossas televisões têm passado inúmeras reportagens e imagens dos incêndios, de modo quase interrupto, o que quer dizer que, mesmo que estejamos atentos ao que vemos em casa, o mais provável é que as crianças obtenham informações sobre os incêndios de qualquer das formas. Ainda assim, é importante estar o mais atento possível às informações a que as crianças são expostas, uma vez que algumas imagens ou reportagens são muito violentas e muito explícitas, fornecendo às crianças informações com as quais estas ainda não conseguem lidar. Se as crianças fizerem alguma pergunta ou levantarem alguma questão sobre este tipo de temas, tentem saber o que é que a criança já sabe, o tipo de informações que tem e de que forma chegaram até ela. É importante passar por este processo de forma a perceber se existem conceitos a desmistificar ou clarificar antes de responder a qualquer pergunta.

Deixe à criança espaço para fazer perguntas

A verdade é que caso a criança não faça perguntas sobre o tema, não existe uma real necessidade de explicar o que se passou (excepto para com as crianças que terão a sua realidade alterada por causa dos incêndios ou mais crescidas). Para as restantes, caberá à criança fazer as perguntas, o que farão, visto que as crianças possuem uma curiosidade natural pelo que as rodeia. Neste caso, deve sim responder às perguntas da criança de forma honesta e simples, sobretudo para a criança começar a conseguir construir a sua realidade. No entanto, existem certos cuidados que não devem ser descurados, como vamos explicar de seguida.

Linguagem simples e factos simplificados

Apesar de ser positivo falar sobre os acontecimentos com as crianças, sobretudo se estas fizerem perguntas, a realidade é que não nos podemos esquecer que elas não deixam de ser crianças. Por isso, evite palavras ou termos muito abstratos ou complicados que podem levantar ainda mais questões e medos, provocando exatamente o contrário do que se pretende. Também é compreensível que enquanto adulto tenha uma opinião muito construída sobre quem provocou os incêndios ou de quem é a culpa, mas compreenda que a criança ainda não tem capacidade de absorver esse tipo de informação ou especulação. A maior parte das crianças prende-se com questões mais centradas nela própria: se está segura, se os seus entes queridos estão bem e se já passou ou não.

Admita que não pode saber tudo

Devemos dar espaço para a criança fazer as questões que necessita, claro, mesmo que isso signifique ter de responder a perguntas para as quais não tem resposta. Admita isso mesmo, que não sabe. Que é algo complicado e que mesmo os adultos por vezes não têm todas as respostas.

Permita à criança expor os seus medos e preocupações

Não basta apenas esclarecer dúvidas. Este tipo de acontecimentos que são assustadores mesmo para nós adultos, ainda o são mais para as crianças, e é importante que as suas preocupações sejam ouvidas e que os seus sentimentos sejam validados. É normal que uma criança que perdeu um familiar ou uma casa fique triste. No entanto, se sentir que esta tristeza se prolonga por muito tempo ou com uma grande intensidade, não deixe de procurar um especialista.

Sensibilize as crianças para o ambiente

Mesmo que o assunto dos incêndios seja muito vasto, é importante sensibilizar desde cedo para a importância de tratar do nosso ambiente envolvente, sendo por não deitar lixo para o chão, como também ao não deixar a água a correr ou a luz acesa sem necessidade. As crianças são cada vez mais sensíveis a estas questões, e é de extrema importância que valores como estes sejam incutidos o mais cedo possível.

 

Estas conversas nunca são fáceis, mas são muitas vezes necessárias. Para todas as famílias afetadas por estes incêndios, envio o meu abraço mais apertado. Atravessamos períodos difíceis, mas iremos reerguer-nos fortes.

 

Imagem retirada de http://revistacrescer.globo.com/Criancas/Comportamento/noticia/2015/08/crianca-triste-como-lidar.html

 

 

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