Porque é que a escola tem de mudar e porque é que é tão difícil


“As crianças hoje em dia não conseguem estar sentadas cinco minutos, não conseguem decorar os rios todos de Portugal e arredores, não conseguem prestar atenção a uma aula inteira, não conseguem estudar pelos livros, não têm o menor interesse… Enfim, com as crianças de hoje, o futuro está perdido”

Quantas vezes não ouvimos este discurso fatalista de tudo o que as crianças de hoje não conseguem fazer, e de como a humanidade está condenada nas suas mãos de crianças, que ainda mal sabem o que é o amanhã, quanto mais o peso de todo um futuro.
O que se calhar não ouvimos tanto, mas seria fundamental ouvir mais vezes, é que estas crianças têm uma capacidade de adaptação enorme, que não importa a tecnologia que têm nas mãos porque será apenas uma questão de segundos até a dominarem completamente, que são crianças e jovens com uma capacidade gigante de criar pontes e de conhecer mais além, que são crianças sem fronteiras, que atravessam um período de grande mudança que as obriga a serem muito mais tolerantes, que são crianças que não se prendem por julgamentos pré-concebidos e que acima de tudo não têm medo de partir à aventura, e que serão certamente estas crianças que nos trarão um futuro melhor.

Portanto, como é que é possível que as mesmas crianças que condenam a sociedade sejam as mesmas que têm o poder de a levar mais longe? Onde é que estas crianças se transformam de heroínas em bicho-papão? Fácil, quando lhes é pedido aquilo a que não conseguem responder. Num espaço pouco maior do que 20 anos toda a organização da nossa sociedade mudou drasticamente: já não precisamos de esperar pelo telejornal para saber das notícias, não precisamos de ir ao café para nos encontrarmos com os nossos amigos, já não precisamos de estar circunscritos ao nosso círculo geográfico para podermos fazer amigos, já não precisamos de esperar para perguntar ao professor, já não precisamos de seguir o que se aprende na escola para saber muito mais de uma área específica. Todas estas alterações aconteceram a uma velocidade enorme para nós adultos, mas para as crianças estas mudanças são a realidade, uma vez que elas não conhecem um mundo que não seja assim: rápido, veloz, estimulante e adaptável.

No entanto, e apesar destas mudanças, a escola (salvo excepções que existem e que vão ganhando um peso cada vez maior) mantém-se relativamente na mesma. Continuamos a ter um professor que, geralmente, expõe a matéria aos alunos. Continuamos a esperar que os alunos estejam sentados cerca de hora e meia a ouvir e a aprender, fazendo apenas perguntas sobre a matéria, independentemente de lhes interessar ou não; continuamos a ter manuais escolares que, apesar de se renovarem aos poucos, continuam com um formato extremamente tradicional; continuamos a ter testes como forma de medição do conhecimento; temos um horário cada vez mais carregado; temos um currículo cada vez mais exigente; temos alunos cada vez mais fechados sobre a escola e atividades extra curriculares estruturadas e programadas.

Ora, como é que crianças que crescem numa sociedade em mudança, onde todas as respostas estão à distância de um clique, onde tudo o que lhes interessa está ao seu alcance, onde existem cada vez mais temas e mais hipóteses que eles dominam completamente, até melhor do que os adultos, como é que estas crianças estariam interessadas numa escola de exposição de conhecimento? A resposta é simples, não estariam. Estas crianças enfrentam uma enorme frustração perante a escola, frustração essa que querem expressar, uma vez que vivem numa sociedade em que cada vez mais cada um é livre de dar a sua opinião, mas em que a sua opinião sobre a sua escola pouco é tida em causa.

Ao mesmo tempo, observamos crianças cada vez mais dependentes de tablets, telemóveis e ecrãs, que se isolam num mundo virtual, pouco conectado da realidade e que promove uma aprendizagem longe do mundo que efetivamente as rodeia. Mas reparem, nem nesse desprendimento a escola atual está a conseguir dar resposta. Ao apresentar um horário completo, em que as crianças devem estar em sala de aula, com recreios cada vez mais cimentados, plastificados e sintetizados, onde estar sujo de terra é algo negativo, a escola promove uma hiper-proteção da criança que a repele obrigatoriamente do conhecimento empírico que deveria ser adquirido.

Logo, a solução pareceria simples, correto? Escolas com menor horário escolar, com professores-tutores, a substituir os professores-expositores; recreios mais próximos de matérias primas que as crianças possam explorar, junto com tecnologia que permita às crianças a procura do próprio conhecimento ao seu próprio ritmo. Parece fácil, mas é tão complicado. Porque o que parece fácil teria de ser assente em práticas rigorosas e em todo um re-investimento monetário, de espaço e de pessoal por parte da escola. E no peso e conta precisos, pois não basta lançar uma criança à rua… É necessário estar ao lado desta criança e orientar a sua exploração, garantir que a aprendizagem está a ser realizada e que a sua curiosidade pelo meio está a ser promovida. Mas como fazer isso sem os testes a que estamos acostumados?

Na realidade para mudar a educação seria necessário mudar cada escola, cada recreio, cada comunidade envolvente na escola e cada professor, e acima de tudo, dar as ferramentas necessárias aos professores, que muitas vezes têm a vontade, o conhecimento, mas faltam-lhes os recursos.

Por isso não, a solução não é fácil, mas é urgente. Porque pode não ser hoje, pode não ser amanhã, mas as nossas crianças vão desistir das escolas como estão hoje, e é fundamental que estejamos preparados para lhes dar as respostas que elas necessitam.

Imagem retirada de https://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2013/08/20/noticias-saude,194031/criancas-incentivadas-a-compartilhar-podem-agir-de-forma-mais-sociavel.shtml

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