Sobre um certo programa, de uma certa nanny, num certo canal


Penso que não será novidade para ninguém o programa escolhido para nos entreter no serão de domingos à noite num certo canal do panorama português. Atenção, importa focar na palavra entreter. Penso sobretudo que não será novidade sobretudo pelas mil vozes que se levantaram contra esse programa nos últimos dias. E ainda bem que assim foi.

Eu vi o programa. Sou honesta, não o vi até ao fim, mas vi grande parte. E perguntei-me várias vezes: “como assim, isto foi permitido acontecer?”.
Vejamos, não vou pôr aqui em causa a qualidade ou a pertinência dos conselhos pedagógicos de uma certa nanny. Fez comentários extremamente condescendentes, com carácter generalista, como se estivesse a apresentar uma fórmula de fazer um bolo? Sim, fez. E isso só por si é algo que me incomoda bastante. Considerar que a educação, a vida familiar de cada um e que uma criança são factores lineares passíveis de serem aplicadas fórmulas é algo perigoso. Afirmar que famílias monoparentais são famílias onde existe constantemente um mecanismo de compensação é algo que em muito ultrapassa a linha do bom senso e da ética profissional. Mas mesmo assim, não é isso que eu aqui ponho em causa.
Não ponho em causa de forma nenhuma a família. Aquela mãe e aquela avó que, desesperadas, confiaram em alguém que se apresentou como um oásis num deserto que parecia não ter fim. Não coloco em causa o facto de aquela mãe não ter considerado a segurança e o conforto da filha, expondo-a naquele programa daquela forma. Não, em circunstância alguma coloco a mãe em questão. Porque o dia-a-dia é complicado, porque as crianças conseguem ser ainda mais complicadas, e quando parece não haver mais nenhuma solução, aceitamos tudo na boa fé de que é o melhor para os nossos filhos.
Aquilo que eu ponho em causa, é como é que todo um departamento de um canal de televisão achou que este programa era uma boa ideia. Será que se basearam em toda uma equipa em que ninguém tinha filhos? E se tal for verdade, também ninguém teve bom senso? Como é que pessoas, que fazem da vida escolher programas de televisão, acharam mesmo boa ideia “entreter” (e volto a reforçar a palavra) o resto de Portugal ao espezinhar a vida de uma criança. Reparemos, estamos a falar de uma criança, que por si só tem direitos, tem deveres, tem sentimentos, tem noção que está a ser filmada, tem noção que está um ser humano alheio naquela casa a avaliar os seus movimentos, tem um quartinho dela onde se deve sentir segura, tem um colo de uma mãe que a protege, tem coleguinhas que por si mesmos também vêm televisão e terá hipótese, daqui a uns anos, de poder olhar para aquele programa e ver o que lhe fizeram. Alguém mediu isto? Alguém mediu a invasão que se fez à vida daquela criança e daquela família? E não, o facto de a mãe ter consentido não desculpa o sucedido. Falando como terapeuta, quando os pais estão desesperados, cabe-nos a nós ser calma, não aparato.
E também não, não vê apenas quem quer. Estamos a falar de um dos assuntos mais delicados no futuro de uma sociedade: a educação dos seus membros, e tratá-la como se de uma fórmula de chocolate se tratasse. É um problema, grave, e que diz respeito a todos nós no geral.
Por mais bom senso, e acima de tudo, que os adultos se lembrem que, no final disto, quem merece ir pensar para o banquinho são os adultos, não as crianças.

Imagem retirada de http://thecoolunista.pt/supernanny-ou-super-polemica/

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Fernanda Pereira diz:

    Posso até concordar mas….teriam que acabar com todos os programas de televisão… porquê só agora tantas indignações .
    Como já deve saber isto não é novidade, outros canais mostraram o mesmo e se prestar um pouco mais de atenção ao panorama televisivo encontrará bem pior… podem sempre dizer que não foi em canal aberto para mim valem o mesmo, cabo ou não. Atualmente todos têm acesso… basta clicar num botão. Com isto conseguem ainda mais o objetivo do programa maior audiência…

    1. AnaFonseca diz:

      Bom dia! Muito obrigada pelo seu comentário e sua opinião! Claro que sim, em grande parte, tem muita razão. Se observarmos toda a panóplia de programas de competição e de reality shows que foram adaptados à infância, encontramos exatamente o mesmo problema: a exposição excessiva de crianças a situações que muitas vezes ainda não têm ferramentas para lidar. Isso é também uma grande verdade e um problema que muitas vezes passa despercebido. Aqui, pelo menos na minha óptica, a maior gravidade é a invasão do seu espaço privado, que devia ser isso mesmo, privado, e não exposto daquela forma, perdendo a segurança que lhe devia transmitir. Isso e ainda colocar em evidência os seus comportamentos e julgar os mesmos publicamente, centrando exatamente o próprio programa num “quão má” uma criança é. A nível do impacto da auto-estima da criança não é nada fácil…
      Dito isto, sim, pretendo que este seja o primeiro e único post sobre este tema, uma vez que chega a um ponto em que temos um efeito absolutamente perverso, acabando por aumentar ainda mais as audiências de um programa que em nada beneficia o diálogo sobre a educação!

      Muito obrigada!

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